AI QUE SAUDADE DO MEU INTERIOR

Hoje, estou residindo na maior metrópole do norte, Manaus e trabalhando no distrito Industrial, parque eletroeletrônico da encantadora Zona Franca de Manaus.

A bem da verdade, ainda não encontrei a “franca”, só encontrei a “zona de quase livre comércio ”, é, isso mesmo.


Na madrugada fui despertando de lindos sonhos repletos de tantas saudades do meu interior, de minha Santa Luzia, comunidade onde nasci.

Despertei com saudades de meus pais, avós e demais familiares. Relembrei quando abiscoitava saborosas melancias do meu vizinho, Antonio Inácio, dos Ingás, de dona Maria Bispo, dos viçosos Jerimuns, de dona Celeste Brasil, para completar o café da manhã, e o melhor, é que todos sabiam.

Cheguei por aqui aos quinze anos de idade, hoje, estou com vinte e dois. Anteontem, foi o meu aniversário, minha companheira, Maria Lúcia, morre de preguiça, mas, lá pelas cinco da tarde ela foi tomada de certa coragem e resolveu fazer um bolo de milho e completou com refresco de morango – artificial-, assim confraternizamos mais uma primavera.

Relembrando que no meu interior, o meu aniversário era muito mais cheio de vida. Toda a comunidade participava, minha mãezinha matava a maior galinha do terreiro, papai tratava do capado mais gordo, e meu irmão mais velho, o Antenor, se encarregava do Carneiro, minha irmã do sarapatel de tartaruga, era quando chegava tia Maricota, com um requintado aluar para bebericarmos, enquanto chegava toda a vizinhança.


Enquanto isso eu relava a macaxeira, o Bolo de Macaxeira, era infalível, não podia faltar, mamãe o preparava recheado com castanha do Pará, isso sem falar nos saborosos pés de moleque, doces de cupuaçu, manga e pupunha.

Crédito da Imagem. Sergio Valle. Todos os direitos reservados.

Conforme a vizinhança ia chegando, a mesa ia enchendo, ficando farta. Lembro que chegavam com pequenos tabuleiros de Ventrecha de Pirarucu na Brasa com molho de verduras, Tambaqui na Brasa, Tambaqui ao escabeche, Pescada recheada ao forno e Acari-bodó ao molho da casa.

Ontem fiquei a pensar, o que eu ainda estou fazendo por aqui nessa metrópole? Eu pensei muito em ir embora. O problema é que eu vivo com uma companheira, por sinal ela tem-me decepcionado muito, de repente não é decepção, eu é eu que estou ficando exigente demais.

Agora, surgiu uma nova colega de trabalho, e pegamos a mesma rota, faço de tudo para ficar sentado ao seu  lado, ainda não consegui, parece que ela é diferente, ao menos é bela, mas, não tem me dado bolas.

Dia desses fiquei depois do ponto de ônibus dela, para ver onde ela morava, mas, não consegui me situar, ela desceu e ficou conversando com alguém, não sei, o ônibus se distanciou e ela, conversando, sumiu na curva, precisei descer e pegar uma lotação de volta. Eram três da tarde, quando fui chegando a casa, distante assisti meus três filhos brincando num monte de areia. Fiquei triste, muito triste. Quando entrei em casa, minha companheira assistia a uma novela, não a cumprimentei, e ela continuou a assistir a seu programa televisivo favorito. Tomei um banho, fui conversar com as crianças, mas, meus pensamentos continuaram voltados para a minha adorável colega de trabalho.

De repente é assim, que um lar se acaba, se destrói uma família, vou dar um tempo ao próprio tempo. Não posso me precipitar.

Estou louco de vontade é de voltar para o meu interior.

Gostaria muito de pegar uma canoa e passar uma manhã remando, ficar na enseada de um lago sentindo a brisa bater em meu rosto.

Caminhar pisando no chão molhado forrado pela vegetação rasteira. Suar a camisa tirando o leite da mimosa, bem cedinho. Será que ela ainda está me esperando? Eu não sei. De repente pode estar. E os cânticos inconfundíveis dos passarinhos nas manhãs e fins de tarde. Que saudades.

E o cantarolar das marianas de porta em porta encomendando as almas, só as lembranças. E como estariam às rosas de nosso lindo jardim suspenso na velha canoa rente a cerca de pau-a-pique. Os meus velhos pés de manga rosa e as goiabeiras de um verde vibrante e frutos amarelos ouro ainda continuam viçosos, tomara.


E aquela bilha com um longo púcaro com a pequena Gia a esfriar água de meu inesquecível rio Aduacá. Fazia questão de carregar água só para poder me banhar, era as manhãs douradas de uma infância sem retorno.

E as tardes escaldantes jogando bola defendendo o nosso clube, às vezes perdíamos, noutras vencíamos, arrebatamos tantos troféus, minhas medalhas ainda estão penduradas na velha parede caiada de cal queimado pelo tempo.

Bem na sala está meu retrato quando criança, mamãe mandou fazer, estou num carrinho de madeira, eram de três rodas, segundo mamãe, se me retirassem eu chorava muito, eu gostava de ser empurrado, era um huuq,huuuuq,huuuuuuq, no assoalho que acordava a todos… Que saudades.

Ah que saudades. Saudades de um tempo que dificilmente volta. Ai que saudades… Ai que saudades do meu interior!

Crédito das Imagens.

Wilmar Santin. Todos os direitos reservados.

Sérgio Valle. Todos os direitos reservados.

Mazé Meireles. Todos os direitos reservados.

www.flickr.com/photos/mazemeirelles/2996995214/

www.flickr.com/photos/wsantin/3884755697/

Esta é obra de ficção.

Autor: LISON COSTA. Todos os direitos reservados.

Rascunho sem correção, feito as 16h07min do dia 11 de março de 2010.

Postado Por LISON COSTA.

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13 respostas para AI QUE SAUDADE DO MEU INTERIOR

  1. Edilza disse:

    Que privilégio nascer em um lugar tão belo, com tantos recursos naturais e saudáveis. Belo post.

  2. Madresgate disse:

    Ola Companheiro Lisonn

    Concordo com voce quando diz que tem saudades de seu interior.
    Passo pelo mesmo dilema, Nasci em São Paulo, mas com o passar do tempo fui residir em Taubaté-SP, onde parte de minha familia se estabeleceu, sendo neto de italianos e ingleses, nada melhor que uma cidade pequenina para se morar.
    Infelizmente meu campo profissional está exclusivamente em São Paulo, sendo assim tive que voltar para esta cidade tão apressada e louca, mas tudo pode mudar um dia, nossa felicidade e paz não tem preço, mas devemos construir nosso patrimônio para termos tranquilidade.
    Espero que daqui a algum tempo possa retornar para minha cidadezinha e viver as coisa boas da vida.
    Parabens pela postagem
    Um forte abraço
    Mad

  3. Lilian disse:

    Olá querido amigo Lison,

    Parabéns pelo post.
    Que texto magnífico escreveste amigo.
    Fui lendo e encantando-me com a tua narrativa.
    Que maravilha! O conto é ficção, mas os lugares, certamente, não. E como deve ser lindo esse lugar!
    O título do post é muito convidativo a refletir sobre a infância, porque amigo, acho que todos nós, na verdade, temos saudades do interior.
    Sim, saudades do lugar onde vivemos a infância,ou se não assim for, saudades do próprio eu interior, onde guardamos as lembranças de momentos felizes de crianças.
    Linda a crônica. Adorei!
    Carinhoso e fraterno abraço,
    Lilian

  4. Fernandez disse:

    Muito bom texto amigo Lison! Sempre nos presenteando com textos muito profundos e que destacam de forma primorosa elementos da natureza e da vida familiar.
    Me faz pensar nos bons tempos de infância.
    Parabéns pelo belo post!
    Forte abraço, Fernandez.

  5. Amigo, agora, você me fez viajar, para o interior de Goiás, eu também sinto uma imensa saudade do meu Quirinopolis… sinto falta de viver em um lugar onde todos se conhecem, confiam, sabem quando você está doente, feliz, infeliz, e por aia vai……
    Beijos no coração….
    Seja feliz.

  6. Que maravilha, poder ler um texto que descreve a realidade de muitos brasileiros longe de sua terra natal, sensacional.
    Abraços forte

  7. João Alberto disse:

    Um texto maravilhoso amigo Lison. Na verdade quem nasceu no interior e mora nos grandes centros, sempre bate aquela saudade dos velhos tempos, aquela calmaria, o sossego,o ar puro e toda aquela fartura na mesa, é muito emocionante.
    Grande abraço.

  8. ismaelita disse:

    lindo post,gostei me fez lembrar da poesia

    oh!que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais…Cassimiro de Abreu

  9. Luísa disse:

    Lison,

    Fiquei também cheia de saudades do meu interior! Saudades das refeições e da tagarelice das tias. Saudades dos longos serões de Inverno e das histórias que o meu pai inventava até eu adormecer.

    Que conto lindo! Parabéns.

    Grande abraço
    Luísa

  10. Maria disse:

    Meu grande amigo Lisonn

    Que lugar lindo você morava ein, acho que era o paraiso.Fiquei curiosa quando oce falou que comia sarapatel de tartaruga? nao sabia que existia.Adoro um bolo de macaxeira, tudo do interior é bom e saudavel.Parabens meu amigo.

    Bjs

  11. Antonio Regly disse:

    Lison,

    Creio que não poderia haver nome mais feliz para um lugar que fica fora dos grandes centros: Interior.
    As músicas, poemas e as nossas histórias do Interior são lindas e maravilhosas e a maioria delas produziram alguma marca boa em o nosso ser.

    A descrição da foto do infância no finalzinho do post me fez lembrar também da minha infância e tantas coisas boas que aconteceram. Esta foto de infância me traz a recordação dos meus tempos escolares, em que eu lutava para ficar entre os três primeiros lugares, para não apanhar dos meus pais e também não passar as férias de castigo.
    Aqueles dias eram austeros. Hoje posso dizer que eles me fizeram um homem feliz e bem sucedido em todas as áreas da minha vida. As cobranças paternas me ensinaram muitas coisas boas, as quais tem me proporcionado recolher os bons frutos.

    Gostaria de ver um post com sua foto de infância. Quem sabem não fazemos aqui um jardim de infância?

    Belo post!

    Abraço do amigo,

    Antonio

  12. erickfigueiredo disse:

    Nosso recanto dos tempos de infância vive sempre dentro de nós, mesmo que não mais exista, como é o meu caso. A cidade onde nasci cresceu e se brutalizou. Mas continua viva em minhas lembranças.

  13. icommercepage disse:

    Olá Lison:

    Seu texto deu às imagens estáticas o movimento que lhes faltava, a combinação ficou perfeita.

    Parabéns pela narrativa.

    ABS

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